Impressora 3D modelo Geeee ® Foto: Marcos Kontze

A revolução das impressoras 3D e como seu uso pode auxiliar a medicina moderna a salvar vidas

Impressoras tridimensionais são a resposta do futuro para as necessidades do presente

Imagine um futuro em que órgãos humanos artificiais são modelados em um computador e reproduzidos em impressoras 3D? Essa prática que parece ter sido retirada de um filme de ficção científica já é realidade. Ainda não chegamos lá, mas os primeiros passos já estão sendo dados, inclusive no Brasil.

A impressão 3D é uma das revoluções tecnológicas mais surpreendentes dos últimos tempos, e uma das áreas que essa tecnologia promete ter maior impacto é na medicina moderna. Cada vez mais próximo de se tornar realidade, a criação tridimensional de órgãos do corpo humano passíveis de serem transplantados, apesar de ser inovador, também gera controvérsia entre a comunidade científica.

Com a tecnologia avançando a passos largos, além de membros do corpo humano, tomografias, ressonâncias magnéticas e ultrassons já começam a sair da tela do computador para o mundo real. O estudo já está presente em grande parte das pesquisas científicas na área da saúde, com a coleta de dados sobre os benefícios nunca antes imaginados na história da medicina. O que era impensável há 50 anos, como um transplante de face, por exemplo, hoje já é possível graças a técnicas apuradas na área.

Embora os testes de como esse material se comporta em contato com o corpo humano ainda não terem sido concluídos, devido a necessidade de materiais biocompatíveis em cada aplicação, e de ainda não existir a regulamentação da ANVISA para o implante deste tipo de objeto, no Brasil, o próximo passo é a produção de peças que possam na prática ser implementadas em pacientes. Próteses de membros, ossos, cerebrais e até de vasos sanguíneos, já estão em fase avançada de desenvolvimento e cada vez mais próximas de tornarem-se realidade com o uso de impressoras 3D, cada vez mais comum no dia-a-dia dos laboratórios.

 "A máquina trouxe o futuro para o presente", destaca o físico-médico de Restinga Seca, Márcio Fontoura, que atualmente atua na área de instrumentação e equipamentos de química analítica. “Ainda estamos em processo embrionário com o que essa tecnologia é capaz de fazer".

Apesar de ter sido inicialmente implementada fora do país, o Brasil não fica de fora das pesquisas nesse campo. A Casa de Saúde São José, hospital de referência no Rio de Janeiro, é um dos pioneiros a usar a impressão 3D para planejar cirurgias em seus pacientes.

“O médico é capaz de ver a prótese e enxergar o defeito exato. Com isso, consegue programar muito melhor sua cirurgia, algo fantástico para o paciente”, destaca o radiologista Henrique Guenka.

Na Unicamp, um projeto inédito de fabricação de próteses de titânio está sendo desenvolvido, e promete revolucionar ainda mais as cirurgias no crânio e na face.

A construção de próteses em 3D em titânio começa com as imagens captadas nos exames de tomografia e ressonância magnética. Essas informações são inseridas num software exclusivo que ajuda a reconstruir perfeitamente em 3D o crânio do paciente.

Atualmente moldadas a mão, as próteses do futuro feitas com tecnologia 3D são resultado do trabalho de profissionais em softwares de imagens, e seu design é criado diretamente no computador. Segundo informações divulgadas pelo Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Biofabricação, a precisão dos moldes impressos em 3D é de décimos de milímetro, podendo planejar uma cirurgia de uma forma muito mais avançada

A tecnologia 3D na Odontologia

Outra área da saúde que também tira proveito da tecnologia 3D é a Odontologia. A cada ano, novas formas de tratamento e restaurações auxiliam tanto os profissionais da área quanto os pacientes. Para o periodontista Rodrigo Ardais, o uso das tomografias 3D é o recurso perfeito para implantes nos pacientes. No entanto, Ardais acredita que a “prototipagem das áreas bucais ainda pode evoluir”.

Rodrigo Ardais é periodontista em Santa Maria ® Foto: Marcos Kontze

Rodrigo Ardais é periodontista em Santa Maria ® Foto: Marcos Kontze

Restaurações dentárias com design criado em softwares especializados são cada vez mais comuns nos consultórios. Com o passar dos anos, as próteses sofreram inúmeras modificações e hoje são praticamente indistinguíveis dos dentes naturais. “As restaurações projetadas em softwares 3D estão cada vez mais perfeitas”, garante o dentista.

Ardais também falou sobre a tecnologia CAD - Computer-aided Design, (desenho assistido em computador, em português), apesar do alto custo. “A tecnologia CAD também é interessante na área, mas o custo ainda é alto”, garante.

Essa tecnologia trouxe um avanço incomparável para a Odontologia. O sistema possui um scanner de alta precisão que transfere a imagem do material para o computador. A imagem tem sua estrutura ajustada e moldada em 3D de acordo com a necessidade do paciente, depois, o comando é direcionado a uma fresadora que transforma a estrutura da prótese virtual em realidade.

"A tecnologia transformou algo artesanal em uma produção automatizada, exata e com nível de qualidade incomparável", ressalta Rodrigo Ardais. "O sistema CAD/CAM diminuiria o tempo de confecção dessas peças, eliminando custos para o paciente"

Santa Maria já conta com a nova tecnologia de ponta

Assim como no resto do país, Santa Maria não ficaria de fora da nova tecnologia. Na cidade, além da Incubadora Tecnológica da Unifra e da Clínica de Radiologia Odontológica Medianeira já utilizarem diferentes modelos de impressora 3D em seus laboratórios, entusiastas da área da computação também já estão criando materiais tridimensionais.

Guilherme Nogueira, bacharel em Ciências da Comunicação revela que tinha grande curiosidade em investir na tecnologia, e desembolsou US$ 400 dólares em um modelo DIY (Do It Yourself) no ano passado. “Tudo pode ser configurado na impressora, desde a velocidade, o tamanho e a quantidade de matéria-prima usada nas impressões, sendo elas ocas ou maciças”, explica.

Nogueira também falou sobre o material utilizado na sua impressora. “O que eu utilizo nas minhas impressões é um tipo de plástico ecológico chamado Poliácido Láctico, ou PLA. Ele é vendido em filamentos de 400 metros e custa em média de R$ 120,00 reais".

Outra matéria-prima que pode ser utilizada na impressora do santa-mariense é a Acrilonitrila Butadieno Estireno, conhecida também como ABS. "É um material mais barato, mas tem o inconveniente de soltar um cheiro muito forte", constata Nogueira, que revelou na entrevista feita em vídeo, que pretende investir em um novo modelo de impressora como fonte de renda, com a venda de materiais de decoração.

No vídeo abaixo, uma demonstração do funcionamento da impressora de Guilherme, um modelo Geeetche I3 Prusa, importada da Austrália:

Com a escassez de órgãos humanos cada vez maior, a tecnologia 3D está revolucionando a medicina de uma maneira nunca antes imaginada. A triste realidade vista nos corredores dos hospitais é a de que muitas pessoas morrem enquanto esperam uma doação, enquanto outras precisam esperar outras pessoas morrerem para conseguir um órgão.

Estudos recentes feitos na Universidade de Harvard estimam que entre 10 a 20 anos a medicina já será capaz de resolver esse problema com o uso da tecnologia 3D. Imprimir um coração ainda está longe de se tornar realidade, mas cientistas já descobriram como imprimir células humanas tridimensionais e criar tecidos que emulam os batimentos das membranas do coração.

Além de salvar vidas, com o tempo, o avanço dessa tecnologia também será capaz de eliminar potencialmente o uso de animais em experimentos científicos. Ainda não vimos nada. A revolução de fato está apenas começando...